Na cidade onde as manhãs chegavam sempre atrasadas, vivia um homem com um nome comum. Tinha um hábito curioso: todos os dias, várias vezes por dia, acendia pequenos incêndios na ponta dos dedos.
Não eram incêndios grandes, não aqueciam casas, não iluminavam ruas, não salvavam ninguém do frio. Eram chamas tímidas, quase envergonhadas, que ele levava aos lábios como quem prova um segredo. Depois, puxava o fumo para dentro de si, como se estivesse a guardar nuvens no peito.
O homem dizia que aquilo o acalmava. Era o seu intervalo dentro do tempo, o seu silêncio portátil. E, no entanto, quem o observasse com atenção poderia notar que, a cada chama acesa, algo nele se apagava com igual discrição.
Havia dias em que o vento brincava com o fumo, desenhando formas no ar: serpentes, espirais, pequenos fantasmas que subiam e desapareciam. O homem gostava de segui-los com o olhar, como se fossem pensamentos que não precisava de enfrentar. Nunca reparava que, enquanto os fantasmas subiam, deixavam para trás uma sombra invisível que se instalava dentro dele.
Certa vez, um miúdo perguntou-lhe:
— O que é que isso faz?
O homem hesitou. Olhou para o pequeno cilindro entre os dedos, depois para o fumo que se dissipava.
— Ajuda-me a respirar — respondeu, sem grande convicção.
O miúdo franziu a testa:
— Mas parece que estás a fazer o contrário.
Homem riu-se, mas não respondeu. Nesse dia, pela primeira vez, reparou no peso da própria respiração, como se cada inspiração tivesse de atravessar um labirinto construído por ele próprio, tijolo a tijolo, fumo a fumo.
Mesmo assim, no dia seguinte, voltou a acender outro daqueles pequenos incêndios inúteis. Era estranho: ele sabia que não precisava deles, mas também já não sabia muito bem como estar sem eles. Era como carregar uma pedra no sapato durante tanto tempo que, quando finalmente a tiras, estranhas o modo leve de caminhar.
E assim continuou, guardando nuvens no peito e chamando-lhes descanso, alimentando chamas que nada aqueciam, perseguindo fantasmas que nunca existiram, sem nunca perceber completamente por que razão insistia em incendiar, todos os dias, aquilo que mais precisava de proteger.

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